Vale tudo, mesmo tirar olhos
19
Jan 09
Pirateada por João Rodrigues, às 15:02Ligação da mensagem | Bombardear
Edgar Allan Poe nasceu faz hoje 200 anos que nasceu. Um dos percursores da literatura policial, da ficção científica e do fantástico. Foi também poeta. Como homenagem, fica o poema mais conhecido de Poe - O Corvo, na tradução de Fernando Pessoa.
O Corvo, de Edgar Allan Poe.Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,E já quase adormecia, ouvi o que pareciaO som de alguém que batia levemente a meus umbrais."Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.É só isto, e nada mais."Ah, que bem disso me lembro! Era no frio Dezembro,E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dadaP'ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais -Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,Mas sem nome aqui jamais!Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxoMe incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,"É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.É só isto, e nada mais".E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,"Senhor", eu disse, "ou senhora, decerto me desculpais;Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,Que mal ouvi..." E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.Noite, noite e nada mais.A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,E a única palavra dita foi um nome cheio de ais -Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.Isso só e nada mais.Para dentro estão volvendo, toda a alma em mim ardendo,Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais."Por certo", disse eu, "aquela bulha é na minha janela.Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais."Meu coração se distraía pesquisando estes sinais."É o vento, e nada mais."Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais,Foi, pousou, e nada mais.E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amarguraCom o solene decoro de seus ares rituais."Tens o aspecto tosquiado", disse eu, "mas de nobre e ousado,Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais."Disse o corvo, "Nunca mais".Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.Mas deve ser concedido que ninguém terá havidoQue uma ave tenha tido pousada nos meus umbrais,Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,Com o nome "Nunca mais".Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamentoPerdido, murmurei lento, "Amigo, sonhos - mortaisTodos - todos já se foram. Amanhã também te vais".Disse o corvo, "Nunca mais".A alma súbito movida por frase tão bem cabida,"Por certo", disse eu, "são estas vozes usuais,Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandonoSeguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de aisEra este "Nunca mais".Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneiraQue qu'ria esta ave agoureira dos maus tempos ancestrais,Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,Com aquele "Nunca mais".Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendoÀ ave que na minha alma cravava os olhos fatais,Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinandoNo veludo onde a luz punha vagas sobras desiguais,Naquele veludo onde ela, entre as sobras desiguais,Reclinar-se-á nunca mais!Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incensoQue anjos dessem, cujos leves passos soam musicais."Maldito!", a mim disse, "deu-te Deus, por anjos concedeu-teO esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!"Disse o corvo, "Nunca mais"."Profeta", disse eu, "profeta - ou demónio ou ave preta!Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,A esta casa de ânsia e medo, dize a esta alma a quem atraisSe há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!Disse o corvo, "Nunca mais"."Profeta", disse eu, "profeta - ou demónio ou ave preta!Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais.Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vidaVerá essa hoje perdida entre hostes celestiais,Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!"Disse o corvo, "Nunca mais"."Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!", eu disse. "Parte!Torna à noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!"Disse o corvo, "Nunca mais".E o corvo, na noite infinda, está ainda, está aindaNo alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.Seu olhar tem a medonha cor de um demónio que sonha,E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais,E a minh'alma dessa sombra, que no chão há mais e mais,Libertar-se-á... nunca mais!
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Pirateada por João Rodrigues, às 14:36Ligação da mensagem | Bombardear
Na moção de Sócrates para a entronização de Fevereiro, o casamento homossexual e a regionalização é uma maneira de desviar as atenções da crise durante a campanha eleitoral; é também um modo de tentar ir buscar votos ao PCP e ao BE. E vai fingir, ainda mais, que é de esquerda, com a baixa de impostos para a classe média.Só por acaso, foi hoje que as federações de futebol de Portugal e Espanha assinaram o protocolo para a candidatura conjunta ao mundial de 2018: quando se conhecem as previsões (que são negras) de Bruxelas sobre a economia portuguesa. Nas "notícias" nas televisões, ao jantar, não vão falar de outra coisa. Se não foi de propósito, parece. Isto é mais uma para Sócrates usar na campanha eleitoral.

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